7 tendências do APAS Show 2026 que já estão mexendo no seu mercado de bairro
Saudabilidade, GLP-1, IA operacional, hortifruti estratégico e mais: as 7 tendências mais fortes do APAS Show 2026 e o que cada uma significa para o varejo de bairro.
7 tendências do APAS Show 2026 que já estão mexendo no seu mercado de bairro
A 40ª edição do APAS Show, em maio deste ano, foi a maior já feita: três dias de congresso reunindo as principais redes, fornecedores e especialistas do varejo alimentar brasileiro. Mas o que ficou no fim das contas não foi um anúncio de tecnologia — foi um diagnóstico. As tendências do setor não estão chegando: já chegaram. Estão no caixa, todo dia, com ou sem permissão.
Para o mercado de bairro, a tentação é tratar tudo o que sai do APAS como "coisa de Carrefour". Não é. As sete frentes abaixo já mudam a margem, o mix e a fidelização — em loja de qualquer tamanho. Vale a leitura, e vale o ajuste.
1. Saudabilidade não é mais discurso — é troca real na gôndola
A pesquisa APAS/Scanntech cruzou 15 bilhões de tickets do varejo alimentar e o resultado foi taxativo: 64% dos consumidores brasileiros passaram a consumir produtos mais saudáveis. No comparativo entre o primeiro trimestre de 2022 e o mesmo período de 2026, o volume de açúcar caiu 21,2%. Chocolates recuaram 15,7% e biscoitos, 19,3%. Na direção oposta, verduras cresceram 41%, legumes 28% e frutas 18%. Frutas congeladas mais que triplicaram desde 2022. Perecíveis já representam 44,3% do faturamento do setor.
A leitura prática para o varejo de bairro não é virar uma loja gourmet. É revisar o mix sem expulsar o tradicional — colocar o pão integral ao lado do francês, a versão sem açúcar ao lado da tradicional, e capturar o cliente que hoje sai da sua loja pra comprar isso em outro lugar.
2. As canetas emagrecedoras (GLP-1) já mudam o que cabe no carrinho
Medicamentos como Ozempic, Mounjaro e Wegovy cresceram 94% em buscas entre 2024 e 2025. Entre usuários, 61% relataram redução de apetite, 47% aumentaram o consumo de proteína e 35% diminuíram o interesse por doces e gordurosos. O efeito direto é a queda silenciosa de categorias inteiras de alta margem (chocolate, salgadinho, refrigerante) e o crescimento de embalagens menores e itens proteicos.
O alerta que ficou no congresso foi direto: quem só perceber essa virada no relatório mensal vai chegar com três meses de atraso. Quem cruza o histórico do PDV semana a semana identifica o movimento na hora — e ajusta exposição, abastecimento e sortimento antes que a margem evapore.
3. IA virou rotina operacional — não é mais "tendência"
Em todos os painéis sobre tecnologia, a discussão sobre inteligência artificial mudou de "se" para "como". Abastecimento preditivo, previsão de demanda, prevenção de perdas com visão computacional, automação de pedidos — tudo já está acontecendo nas redes médias e grandes. A mensagem central foi uniforme: IA sem base operacional organizada apenas escala ruído. Sem cadastro consistente e histórico confiável de venda, a tecnologia não tem onde trabalhar.
Para o mercado de bairro, isso é uma boa notícia. Não precisa começar pelo topo. Precisa começar pelo dado que você já tem — o histórico do caixa — e construir disciplina semanal de leitura. A tecnologia maior só rende depois que essa base existe.
4. Dado virou infraestrutura competitiva — e o gap é a maior oportunidade
Pesquisa apresentada por Vera Bermudo no auditório de Execução Harmônica mostrou um número que merece ser colado na parede do escritório: apenas 24% dos tomadores de decisão do varejo se consideram alfabetizados em dados, e só 17% incentivam suas equipes a se desenvolverem nessa competência. Em outras palavras: três em cada quatro varejistas brasileiros operam por achismo num cenário em que a concorrência aprendeu a operar por evidência.
A rede Bom Lugar foi citada como exemplo: estruturou a coleta e análise de dados de consumo com o aplicativo Clube Bom Lugar e hoje reúne cerca de 287 mil clientes cadastrados, com o CRM como eixo central da relação com o consumidor. O recado para o varejo de bairro: ler o próprio caixa com método e cadência semanal já coloca o gestor à frente da maioria do setor. Não é sobre virar cientista de dados — é sobre parar de decidir no escuro.
5. FFLV (hortifruti) virou ativo estratégico
Frutas, legumes e verduras já representam até 40% do faturamento dos supermercados — e a fala da IFPA no congresso foi precisa: lojas com maior participação de frescos podem gerar até 15% mais lucro. A categoria deixou de ser "o canto da loja onde a gente perde" e virou peça-chave de percepção de preço, frescor e fidelização.
O salto que o APAS pediu é tratar FFLV como categoria de verdade — com curadoria de sortimento, controle rigoroso de validade, exposição pensada e comunicação clara. No mercado de bairro, esse é o ponto onde a vantagem da proximidade com o fornecedor regional vira diferencial de loja: o tomate que está no balcão pela manhã não é o mesmo do CD de quatro horas de viagem.
6. A marca própria deixou de ser "barato genérico"
Pesquisa da NielsenIQ trazida ao evento mostrou que 50% dos consumidores brasileiros já compram mais marcas próprias do que antes, e as gerações mais jovens são as mais dispostas a gastar mais num produto de marca própria que aprovem. Marca própria deixou de competir por preço e passou a disputar confiança, qualidade e fidelização.
Para o mercado de bairro que não tem fábrica nem orçamento de private label, o caminho é parceria: o pão da casa, o azeite com etiqueta da loja, o queijo do produtor regional vendido só ali. A marca própria de bairro vira identidade — o motivo pelo qual o cliente atravessa a rua para comprar com você e não com a rede grande.
7. Tecnologia no bastidor, humanidade na frente
Bob Phibbs, do The Retail Doctor — consultor que já treinou mais de 250 mil profissionais de vendas em 16 países — foi direto na palestra "Paixão em Ação": supermercados que investem apenas em tecnologia, sem fortalecer o relacionamento com o cliente, correm o risco real de perder relevância. A frase que ficou: "Vendas são algo que você faz com alguém — não para alguém."
Mario Sergio Cortella complementou com uma pergunta que vale colar ao lado do dado dos 24%: "O que fazemos hoje que fará falta quando não estivermos mais aqui?" Para o varejo de bairro, esse é o trunfo histórico, o ativo que rede grande não consegue copiar. A automação certa não tira humanidade da loja — ela devolve tempo para o atendimento que importa.
O fio condutor
Nenhuma dessas sete coisas é distante do balcão do bairro. Saudabilidade, canetas emagrecedoras, dados, hortifruti, marca própria, IA, atendimento — tudo está chegando no caixa, todo dia. A diferença entre o varejo que cresce e o que apenas acompanha o setor é a velocidade entre identificar o sinal e ajustar a operação.
A boa notícia é que o trunfo histórico do mercado de bairro — conhecer o cliente de perto — é exatamente o que essas tendências pedem. O que falta para a maioria é o instrumento que transforma esse conhecimento em ação consistente, semana após semana. É nessa ponte entre o dado de venda e o relacionamento com o cliente que o Clubvarejo trabalha: leitura comportamental, segmentação automática, comunicação dirigida ao cliente certo. Não para substituir o seu olho — para amplificá-lo.
O APAS Show 2026 confirmou: as bases não mudaram. Execução, confiança, disponibilidade, consistência. O que mudou foi a velocidade com que o cliente cobra cada uma delas.